Páscoa e Chocolate: Preços Altos Persistem
O consumidor brasileiro pode enfrentar mais uma Páscoa com o bolso apertado, e a culpa não é apenas da prateleira de supermercado. A alta nos preços do chocolate tem raízes em fatores que vão muito além do mercado local. Apesar da queda na produção de cacau, o custo do chocolate continua elevado devido a uma combinação de problemas globais e financeiros.
Crise Global e Impacto nos Preços
Dados recentes mostram que o chocolate em barra e os bombons tiveram um aumento de cerca de 26% em 12 meses, segundo o IBGE. Essa situação é resultado de uma crise de oferta global, que se intensificou entre 2023 e 2024. Os maiores produtores de cacau, Costa do Marfim e Gana, responsáveis por 70% da produção mundial, enfrentaram dificuldades devido a problemas climáticos e estruturais.
O Fenômeno El Niño e a Escassez
O fenômeno climático El Niño provocou secas prolongadas e chuvas irregulares, além de favorecer a proliferação de doenças que devastaram plantações inteiras. Isso reduziu drasticamente a oferta global de cacau, elevando os preços no mercado internacional.
Em 2024, o cacau chegou a ultrapassar US$ 12 mil por tonelada, um aumento superior a 400% em comparação com 2022.
Tempo de Repasse e Estratégias da Indústria
A indústria de chocolate trabalha com contratos de médio prazo, fechados com antecedência de 6 a 18 meses. Isso significa que boa parte do chocolate que encontramos hoje foi produzido com matéria-prima adquirida nos picos de preços. Além disso, algumas empresas adotaram estratégias para preservar suas margens, como a redução do tamanho dos produtos e a reformulação de receitas, com menor teor de cacau ou substituição por outras gorduras vegetais.
Recuperação da Oferta e Impacto no Consumidor
A queda recente no preço do cacau pago aos produtores está ligada à recuperação parcial das safras, tanto no Brasil quanto em países africanos. Com a melhora das condições climáticas, a oferta começou a se normalizar, pressionando os preços para baixo.
No entanto, esse movimento não se traduz imediatamente em redução de preços ao consumidor, devido ao tempo de repasse na cadeia produtiva.
Brasil e a Dependência Externa
Embora o Brasil seja um importante produtor de cacau, ocupando a sétima posição global, o país ainda não é autossuficiente. Parte da indústria depende da importação de derivados de cacau, como manteiga e pasta. Em 2025, a produção nacional alcançou cerca de 186 mil toneladas, enquanto as importações somaram mais de 42 mil toneladas, com forte dependência da Costa do Marfim.
Perspectivas e Mudanças Estruturais
Diante desse cenário, o governo brasileiro suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, alegando risco sanitário. No entanto, essa medida não deve ter impacto relevante nos preços no curto prazo, pois o mercado interno é majoritariamente abastecido pela produção nacional, e a demanda da indústria tem mostrado sinais de enfraquecimento.
O chocolate vai ficar mais barato em algum momento? A resposta, pelo menos no curto prazo, não é animadora. Embora o fenômeno El Niño esteja perdendo força, os problemas estruturais da cadeia do cacau permanecem.
Com demanda crescente, especialmente na Ásia, e desafios persistentes na produção, o equilíbrio entre oferta e consumo tende a continuar pressionado. Na prática, isso significa que o consumidor deve se acostumar com um novo patamar de preços para o chocolate, não apenas nesta Páscoa, mas nos próximos anos.
