Cenário de Investimentos: De Otimismo a Incerteza com Choque de Petróleo
No início deste ano, gestores de fundos multimercados compartilhavam um consenso positivo. Esperava-se um dólar globalmente fraco, bolsas mundiais em alta, menor pressão inflacionária e uma tendência de cortes nas taxas de juros. Este era o cenário considerado mais favorável, segundo Rodrigo Azevedo, sócio e gestor da Ibiuna Investimentos.
Contudo, a situação mudou drasticamente com o início de um conflito entre Estados Unidos e Irã, gerando um choque significativo no preço do petróleo, a principal fonte de energia mundial. “Estávamos expostos a riscos e tivemos que recuar. A posição que era positiva virou negativa em poucos dias”, relatou Azevedo durante o 12º Fórum de Investimentos do Bradesco BBI, nesta terça-feira, dia 7.
A Virada das Expectativas e o Fator Geopolítico
O gestor apontou que os agentes financeiros rapidamente precificaram uma mudança de expectativa, passando de cortes para possíveis altas de juros, especialmente na Europa. A definição de novos posicionamentos e realocações de ativos passou a depender de uma única questão: por quanto tempo durará o conflito?
A visão de Azevedo é que, se o choque for passageiro, os preços se recuperarão gradualmente, sem necessidade de intervenção dos bancos centrais, o que faria o dólar desvalorizar e o mercado retornar ao patamar inicial. No entanto, se o conflito se prolongar, o cenário muda completamente.
Impactos Desiguais em Diferentes Economias
Atualmente, os gestores estão focando em se posicionar para as consequências secundárias do que já está acontecendo. Há uma diferença notável no impacto entre os países produtores de petróleo e os grandes consumidores de energia.
A precificação do aumento de juros foi mais intensa na Europa, devido à alta dependência do continente em relação ao gás natural. Nos EUA, um grande exportador de óleo, essa antecipação foi menor. Esse padrão se reflete nos mercados emergentes.
Análise dos Mercados Emergentes
O Brasil, como exportador de petróleo, apresentou pouca alteração na taxa de câmbio e na depreciação da bolsa. Em contraste, a Coreia do Sul, que teve forte valorização no início do ano, mostra um cenário diferente.
Bruno Cordeiro, sócio da Kapitalo Investimentos, ressalta que o choque do petróleo já está estabelecido e não há como reverter essa situação. Ele observa que, enquanto todos focam no preço do petróleo bruto, os derivados tiveram um aumento muito mais acentuado, sinalizando uma crise mais profunda.
Divergências de Mercado e Perspectivas Futuras
Em um cenário de guerra prolongada, Cordeiro alerta para grandes chances de problemas de oferta. Ele estima que mais 30 dias de conflito podem levar a uma queda na disponibilidade de derivados na Ásia, atingindo níveis de racionamento. O gestor acredita que o mercado está superestimando o risco no curto prazo, precificando mal os ativos.
Ele aponta uma incoerência: os agentes globais preveem aumento de juros em vários países, mas o preço do petróleo está muito mais baixo, na faixa de US$ 80, enquanto os contratos curtos superam US$ 110. “Esse prêmio na curva de juros não faz sentido.
Parece uma disfuncionalidade técnica, como se os mercados não conversassem entre si”, comenta Cordeiro.
O Cenário Monetário Brasileiro
As dúvidas também envolvem a política monetária do Brasil. A principal questão é qual será o tamanho do corte de juros que o Banco Central conseguirá aplicar diante do risco inflacionário gerado pelo choque do petróleo. Atualmente, o mercado espera um corte que levaria a Selic a 14% ao final do ano.
Para Azevedo, dois fatores definirão o espaço para cortes: a taxa de câmbio e a expectativa de inflação. Embora o câmbio esteja estável, o risco maior reside na abertura das expectativas inflacionárias. “O Brasil tem muitos ajustes de preços indexados à inflação.
Isso alastra o choque inflacionário pela economia e torna permanente”, explica o gestor, citando revisões salariais e de aluguéis.
Outros Focos de Risco: PIB e Eleições Internacionais
André Raduan, da Genoa Capital, destacou que, enquanto juros e inflação foram revisados, a atividade econômica ficou de lado. Segundo ele, se o aumento de juros e inflação ocorrer como previsto, o impacto na atividade será muito grande, podendo levar a uma recessão.
A Genoa revisou o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil para 1,5% neste ano e espera uma onda de atualizações nas próximas semanas. Tanto a Genoa quanto a Kapitalo estão monitorando o impacto do petróleo. Cordeiro, por exemplo, posicionou o fundo K10 em curvas de juros, apostando na queda das taxas, e comprou petróleo e diesel, antecipando um choque de oferta nos mercados asiáticos.
A Ibiuna, por sua vez, analisa fatores globais além do conflito. Uma tese é que um impacto muito grande forçaria o Federal Reserve a reduzir os juros, afetando o mundo. Outra tese envolve eleições, como as que ocorrerão na Hungria, onde um possível resultado traria impacto significativo para a moeda e ações do país.
Há também as eleições na Colômbia em maio, cujos resultados também podem movimentar os ativos locais.
