Escalada do Conflito e Oportunidades no Mercado de Commodities
A guerra entre os Estados Unidos e o Irã já está causando um impacto significativo nas cotações de petróleo, e agora o foco se volta para o setor de commodities agrícolas. Com o risco de interrupções nas cadeias logísticas e o aumento dos custos de insumos, o mercado de commodities surge como uma nova fronteira de oportunidades para investidores. “Não é só uma ou outra commodity que está subindo, todas estão.
A última que falta reagir são as agrícolas”, afirma Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.
Spiess acredita que o mundo pode estar à beira de um novo ciclo de alta das commodities, sustentado por fatores que vão além do curto prazo. Tradicionalmente, commodities e o dólar americano caminham em direções opostas: um dólar mais forte tende a pressionar os preços das matérias-primas, e o inverso também é verdadeiro.
Spiess aposta em um cenário de enfraquecimento do dólar, o que abriria espaço para uma valorização consistente das commodities.
Essa visão se baseia em uma combinação de fatores macroeconômicos, como o aumento da dívida dos Estados Unidos, o risco fiscal elevado e um movimento global de diversificação cambial. Há também um posicionamento: o dólar ficou “caro demais” desde a crise de 2008, enquanto as commodities ficaram relativamente baratas.
Pode haver um movimento de busca por mais exposição em commodities.
Fertilizantes Caros e o Impacto na Inflação
O conflito, que já pressiona o petróleo e deve atingir as commodities agrícolas, também afeta o mercado de fertilizantes, essencial para a produção de alimentos. Na terça-feira (24), a Rússia anunciou a suspensão das exportações de fertilizantes por um mês, priorizando o abastecimento interno.
Essa medida se soma a rotas marítimas alteradas e dificuldades no escoamento via Estreito de Ormuz.
No Brasil, o efeito é direto: aproximadamente 40% dos fertilizantes usados no agronegócio passam pela região. O preço da ureia, por exemplo, acumulou alta de cerca de 50% desde o início da guerra, impulsionada pelo encarecimento do gás natural. Segundo Spiess, esse efeito se espalhará rapidamente pela economia real. “Se o fertilizante ficar mais caro, os alimentos vão ficar mais caros.
Então, há um medo inflacionário generalizado no Ocidente”, afirma.
O risco preocupa governos, incluindo os envolvidos na guerra. “Os governantes não querem isso para si, porque inflação acaba gerando impopularidade”, pontua. O presidente norte-americano, Donald Trump, que passa por uma eleição de meio de mandato, deve se preocupar com a possível aceleração da inflação. “Ele não pode se dar ao luxo de ver a popularidade cair ainda mais.
Então, tem motivo para que o conflito acabe antes [da eleição]”, afirma Spiess.
Riscos Estruturais e a Proteção da Infraestrutura
As preocupações vão além do petróleo, fertilizantes e commodities. Há um risco estrutural maior se o conflito avançar sobre a infraestrutura do Irã. “O Irã tem muito petróleo, mas não tem comida nem água em abundância. Grande parte do abastecimento passa pelo Estreito de Ormuz.
Se isso for comprometido, você pode ter uma crise alimentar humanitária”, afirma Spiess.
As usinas de dessalinização nas proximidades do Irã, essenciais para o abastecimento de água, não possuem proteção e um ataque teria consequências imediatas. “Se você ‘queimar’ essas estações, cidades inteiras, como a capital saudita, serão inviabilizadas”, alerta.
Apesar do direito internacional, ele pondera que esse direito está enfraquecendo.
Estratégias de Investimento
Diante desse cenário, o que o investidor deve fazer? Spiess defende uma estratégia menos exposta à volatilidade direta das commodities e mais ancorada na geração de caixa. A preferência é por empresas do setor, que conseguem capturar os ganhos do ciclo de alta com maior previsibilidade. “Eu prefiro me expor a isso com fluxo de caixa em petróleo, por meio de ações do setor”, afirma.
O Brasil aparece bem posicionado. “O Brasil tem muito disso e pode se beneficiar. Se essa tese for verdadeira — e gente grande lá fora defende isso —, pode ser muito bom para os ativos brasileiros de maneira geral”, diz. Entre as alternativas, o analista cita . “Você compra como se fosse uma ação e ganha exposição a empresas brasileiras de commodities”, explica.
