Endividamento no Brasil: Por que o crédito caro persiste apesar da queda de juros?

Endividamento no Brasil persiste apesar queda de juros! Serasa aponta aumento de inadimplentes e dívidas crescem 176%. Qual o paradoxo financeiro?

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(Imagem de reprodução da internet).

Endividamento Persiste Apesar da Queda de Juros no Brasil

Em fevereiro de 2026, os registros apontaram que o Brasil contabilizou 81,7 milhões de pessoas inadimplentes, representando um aumento expressivo de 38,1% em comparação com 2016, conforme dados da Serasa. Contudo, o aspecto mais preocupante não é apenas esse número.

O que chama a atenção é a persistência do endividamento, mesmo em cenários de queda nas taxas de juros. Nesse mesmo período, o montante total das dívidas cresceu 176%, e a dívida média por consumidor avançou 12,2% acima da inflação.

A Estrutura do Endividamento: Um Paradoxo Financeiro

Quando o endividamento demonstra resistência à queda da Selic, ele deixa de ser um evento pontual e se estabelece como uma estrutura. E toda estrutura possui suas causas. Nesses casos, o problema não reside no crédito em si, pois ele é apenas uma ferramenta.

O cerne da questão é a coexistência de duas realidades no Brasil, uma combinação que se tornou perturbadora em sua naturalidade. De um lado, o país possui um patrimônio imobiliário superior a R$ 10 trilhões, representando riqueza construída ao longo de décadas.

O Contraste entre Tipos de Crédito

Por outro lado, há um fluxo anual de quase R$ 100 bilhões em cheque especial e rotativo de cartão, utilizando taxas que frequentemente superam 200% ao ano. Em contraste, o crédito com garantia de imóvel, o home equity, movimentou apenas 10 bilhões de reais em 2024, com taxas mais controladas, entre 18% e 22% anuais.

É notável que o crédito dez vezes mais caro é significativamente mais utilizado. Este é o paradoxo que gera grande preocupação. Não se trata de escassez de produtos, pois os bancos oferecem home equity há anos.

A Falta de Educação Financeira como Principal Obstáculo

O que realmente falta é algo mais simples, mas mais difícil de resolver: informação. A carência de educação financeira potencializa o uso de crédito de alto custo. Dados da S&P Global Financial Literacy Survey indicam que apenas 35% dos brasileiros dominam conceitos básicos de finanças.

Além disso, informações do Banco Central com a OCDE mostram que 58% desconhecem o funcionamento dos juros compostos, e 53% não sabem calcular o impacto de um atraso em pagamentos. Apenas 21% planejam seus orçamentos de maneira estruturada.

Consequências da Desinformação no Consumo

Tais dados não são meras estatísticas; eles se refletem em decisões financeiras tomadas por impulso e com custos elevados. Consequentemente, o cartão de crédito se tornou uma extensão de renda para 33% dos brasileiros, sendo que 40% desses acabam presos ao rotativo mensal, uma das modalidades mais caras do mercado.

Apenas 16% entendem o custo real dos juros que estão pagando, segundo a Anbima, e 72% da população nunca receberam educação financeira na escola, segundo o Ipec. Quando a informação falha, o consumidor opta pela solução mais conhecida, que quase sempre acaba sendo a mais onerosa.

O Potencial da Informação e o Marco Legal das Garantias

A assimetria não é de produto, mas sim de exposição. O cenário muda drasticamente quando o consumidor toma conhecimento de alternativas melhores. Por exemplo, quem deve R$ 40 mil no rotativo pode pagar cerca de R$ 3.000 mensais, mas ao migrar para um crédito com garantia imobiliária, esse valor pode cair para aproximadamente R$ 550, uma redução superior a 80% na parcela.

O Marco Legal das Garantias abriu uma janela importante, permitindo que o mesmo imóvel sirva como garantia em múltiplas operações, tornando o processo mais ágil e seguro juridicamente. Modelos automatizados de avaliação imobiliária reduziram o tempo de análise de meses para dias.

Conclusão: O Foco Deve Ser na Educação Financeira

A tecnologia e a regulação resolvem parte do problema, mas a outra metade é a comunicação e a educação. É fundamental que o consumidor endividado, que possui imóvel próprio, descubra essa saída antes de renovar mais um limite de cheque especial.

Em países desenvolvidos, o estoque de crédito garantido por imóveis ultrapassa 100% do PIB, enquanto no Brasil, mal alcançamos 10%. Este número representa uma imensa oportunidade. O país não precisa de menos crédito, mas sim de um crédito melhor distribuído e, principalmente, melhor compreendido.

Quando o cidadão está bem informado, ele deixa de ver o crédito como um risco e passa a utilizá-lo como uma ferramenta. É essa mudança de mentalidade que pode ajudar milhões de brasileiros a retomarem o controle de suas finanças.

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