Kamel Daoud conquista reconhecimento literário e Prêmio Goncourt com “Língua Interior”

Kamel Daoud, jornalista polêmico, conquista reconhecimento literário com obras como “O Caso Meursault”, finalista do Prêmio Goncourt em 2014. O autor gerou debates com declarações sobre o ciclo de autodesestrutivos dos árabes. “Língua Interior” lhe rendeu o segundo Prêmio Goncourt, destacando-se pela narrativa de Aube, sobrevivente do massacre argelino

08/01/2026 8:22

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(Imagem de reprodução da internet).

Kamel Daoud: Jornalista Polêmico e Reconhecimento Literário

Kamel Daoud, antes de se consagrar como romancista, já era conhecido no cenário midiático por suas colunas provocativas no jornal Quotidien d’Oran, publicação argelina de língua francesa. O escritor argelino, com sua postura sempre desafiadora, gerou debates acalorados, como quando, logo após os ataques terroristas de 11 de setembro, argumentou que os árabes estavam perpetuamente envolvidos em um ciclo de autodesestrutivos, e que a solução residia na produção de bens, e não na fabricação de aviões.

Essa declaração, considerada controversa, despertou preocupações, especialmente em 2014, quando Daoud foi alvo de uma “fatwa” virtual, após afirmar ao canal France 2 que o avanço e a “reabilitação do homem” no mundo árabe só seriam possíveis após uma análise crítica da religião, vista como um fator central para o futuro da região.

O Caso Meursault: Um Contraponto Literário

O primeiro romance de Daoud, “A Ameaça de Morte em seu País de Origem”, não conteve a provocação do autor, que estreou na ficção com o sucesso do romance “O Caso Meursault” (Biblioteca Azul, R$ 49,90). Em 2014, a obra ficou entre os finalistas do Prêmio Goncourt, o prêmio literário mais prestigioso do mundo francófono.

Em 2015, Daoud conquistaria o prêmio na categoria de Melhor Romance de Estreia. “O Caso Meursault” é uma resposta direta ao livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus, e aborda o assassinato de um árabe anônimo, motivado pelo calor. Daoud narra a história sob a perspectiva de Harun, irmão de Musa, o árabe sem nome assassinado por Meursault.

Língua Interior e o Reconhecimento do Goncourt

Com “Língua Interior” (DBA, R$ 114,90), Kamel Daoud conquista seu segundo Prêmio Goncourt. A obra, que recebeu o título de “obra de prosa mais imaginativa do ano”, consolida Daoud como uma voz importante e silencia críticos como Daho Djerbal. O historiador Adam Shatz, da London Review of Books, afirmou que Daoud não era “bom o bastante para o Goncourt” e que “a França jamais daria o prêmio a um argelino”.

A narrativa é conduzida por Aube, sobrevivente de um massacre na guerra civil argelina, que teve a garganta cortada por extremistas. Aube conta sua história à filha que carrega no ventre, apesar do silêncio imposto pela violência, refletindo sobre a possibilidade de superar o trauma coletivo e permitir que um novo país nasça dos escombros.

O Goncourt e a Reconfiguração do Cânone

Considerando os últimos cinco anos, o Prêmio Goncourt foi concedido a dois autores originários de antigas colônias e possessões francesas: Kamel Daoud, em 2024 com “Língua Interior”, e Mohamed Mbougar Sarr, em 2021 com “A Mais Recôndita Memória dos Homens” (Fósforo, R$ 114,90).

Ambos os autores são mestres de seu ofício. A premiação sinaliza uma reconfiguração do cânone literário francês, com a ascensão de vozes do norte da África e da África subsaariana, antes marginalizadas. Essas vozes trazem perspectivas pós-coloniais sobre o trauma, as identidades híbridas e uma prosa de contestação no mais alto nível, demonstrando que para ganhar o Goncourt é preciso dominar a linguagem dos dominadores.

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