O início de 2026 tem apresentado um cenário particular no mercado de crédito privado brasileiro. A expectativa de uma mudança na política monetária do Banco Central tem impulsionado a redução da curva de juros, com o mercado apostando em um período de cortes na taxa Selic.
Em um contexto como este, é comum observar uma revisão dos spreads – a diferença de retorno em relação aos títulos públicos – em títulos como debêntures, buscando compensar a menor atratividade da taxa nominal.
Descolamento da Dinâmica Tradicional
No entanto, o que se observa é um descolamento dessa dinâmica. A forte demanda por crédito tem mantido os prêmios de risco comprimidos, mesmo com a expectativa de queda dos juros. Isso levanta uma questão crucial: até que ponto essa compressão reflete uma melhoria real na qualidade do risco de crédito, ou se é apenas um efeito técnico?
Índice IDA-IPCA Infra: Um Sinal de Compressão
Em janeiro, os spreads apresentaram um fechamento significativo em relação ao final de dezembro. O índice IDA-IPCA Infra, que reúne debêntures de infraestrutura com remuneração indexada à inflação (geralmente isentas de IR para pessoas físicas), atingiu patamares negativos.
Historicamente, esse índice sinaliza uma forte compressão de prêmio de risco. Vale ressaltar que o IDA-IPCA é um índice importante, pois engloba debêntures de infraestrutura, que são instrumentos de financiamento com características específicas.
Demanda por Debêntures: Um Fator Chave
Apesar do cenário de expectativas de queda nos juros, a indústria de fundos de crédito continua recebendo investimentos consistentes. Investidores buscam alternativas ao CDI, que ainda se mantém elevado, e instrumentos com maior eficiência tributária, especialmente entre investidores pessoa física.
Essa demanda elevada por títulos de crédito de alta qualidade (com baixo risco) tem impulsionado a compressão dos spreads.
Spread de Crédito: IDA-IPCA Infraestrutura e IDA-DI Infraestrutura
Fonte: Dados fornecidos pela ANBIMA e BTG Pactual.
Desafios e Perspectivas para o Crédito Privado
Apesar das expectativas de cortes na Selic, o crédito privado enfrenta desafios. A dívida continua cara, a geração de caixa é pressionada em diversos setores, e os balanços das empresas ainda não refletem totalmente os benefícios de um eventual afrouxamento monetário.
A expectativa de queda dos juros melhora o horizonte para o crédito privado, aliviando despesas financeiras e reduzindo o risco de inadimplência.
No entanto, essa melhora é prospectiva, e a antecipação nos preços dos títulos comprados pode comprimir o prêmio de risco disponível. Isso é especialmente sensível no segmento de alta qualidade, onde os spreads são mais estreitos.
Spreads comprimidos limitam a capacidade de absorver eventos adversos e deixam o investidor mais vulnerável a movimentos de abertura nos juros ou a reprecificação de risco quando o fluxo técnico arrefecer.
É hora de ser mais seletivo, focando em estruturas robustas, empresas resilientes, covenants bem desenhados e capacidade de atravessar períodos prolongados de juros elevados.
O mercado parece estar correndo à frente dos fundamentos, e, no crédito, correr demais costuma ser tão arriscado quanto ficar para trás.
