Trump 2.0 Expande Discurso de Ameaça e Pressão Globalmente

Inflexão na Política Externa dos EUA Sob o Governo Trump 2.0 marca mudança na política externa dos EUA, com postura intervencionista e impactos globais.

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(Imagem de reprodução da internet).

Inflexão na Política Externa dos EUA Sob o Governo Trump 2.0

O início do governo Trump 2.0 marca uma clara inflexão na política externa dos Estados Unidos. Diferentemente do discurso de retração internacional que marcou parte do primeiro mandato, o novo governo norte-americano adotou uma postura assumidamente intervencionista, com impactos diretos sobre a soberania de países do hemisfério ocidental e repercussões globais.

Essa mudança representa o ponto de partida mais visível de uma transformação que vai além de um simples episódio isolado.

A Expansão do Discurso de Ameaça e Pressão

Desde a ofensiva militar em território venezuelano, Washington ampliou o discurso de ameaça e pressão para além de Caracas. Autoridades do governo passaram a citar diretamente México, Colômbia, Canadá, Groenlândia, Cuba e até o Irã como países que estariam no radar estratégico dos EUA.

Em paralelo, declarações feitas por representantes norte-americanos na Organização das Nações Unidas indicaram que a preservação de recursos naturais estratégicos, especialmente petróleo, estaria condicionada ao alinhamento político com Washington.

O Multilateralismo em Crise

Beny Fard, especialista em investimentos e mercado internacional, destaca que a nova postura dos EUA não pode ser analisada apenas sob o prisma jurídico tradicional. “O direito internacional como se conhecia deixou de existir na sua estrutura essencial há muito tempo”, afirmou.

Segundo ele, essa erosão não é um fenômeno recente nem exclusivo de Washington. “Decisões de Rússia, China, Irã e países africanos também contribuíram para esse processo”, disse. Para Fard, o governo Trump 2.0 apenas torna explícito um movimento que vinha sendo construído.

A Centralidade de Temas Estratégicos

A percepção de que o multilateralismo perdeu capacidade decisória é compartilhada por diversos analistas. Para Fard, “a globalização e o multilateralismo como se conheciam não existem mais”. Em seu lugar, surge um ambiente no qual segurança energética, alimentar, tecnológica e militar passam a orientar decisões estatais.

Essa centralidade de temas estratégicos foi acelerada pelo período pós-pandemia.

Implicações Jurídicas e Geopolíticas

Do ponto de vista jurídico, a guinada do Trump 2.0 tensiona pilares centrais da ordem internacional. A advogada Daniela Poli Vlavianos, do escritório Arman Advocacia, lembra que a proibição do uso da força segue sendo a regra-matriz do sistema internacional. “O artigo 2(4) da Carta da ONU veda o uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados”, explicou.

A Normalização da Ação Unilateral

Quando uma operação é apresentada como missão de aplicação da lei em território estrangeiro, ela tende a ser requalificada como uso da força, segundo a advogada. Para a advogada, esse tipo de ação “colide diretamente com a arquitetura da Carta da ONU”.

Há um risco de normalização de ações unilaterais sob pretextos criminais, como terrorismo, narcotráfico e corrupção, replicáveis por outros Estados.

Retórica Imperial e o Futuro da Soberania

A retórica adotada por integrantes do governo Trump 2.0 reacendeu debates sobre anexação e tutela de Estados. Para Beny Fard, esse discurso cumpre função estratégica. “Vejo muito mais como discurso político do que como risco imediato de anexação”, afirmou.

Segundo ele, o objetivo central é “fortalecer a hegemonia dos EUA no hemisfério ocidental e dissuadir China e Rússia”.

A Soberania como Ativo Precificado

Daniela Poli Vlavianos alerta que a retórica não é neutra. “A ameaça de uso da força também é vedada pelo artigo 2(4)”, explicou. Mesmo sem anexação formal, declarações sobre “administração temporária” ou controle indireto produzem efeitos jurídicos. “Elas aumentam o dever de não reconhecimento e ampliam a chance de contramedidas diplomáticas e econômicas”, afirmou.

Esse tipo de discurso, segundo a advogada, desloca o sistema internacional de um modelo baseado em regras para um modelo baseado em poder. “A soberania deixa de ser um limite claro e passa a ser contingente ao alinhamento político”.

Petróleo, Poder e a Reconfiguração da Ordem Internacional

O petróleo aparece como elemento recorrente na estratégia do Trump 2.0. Para Beny Fard, trata-se de uma variável relevante dentro de um tabuleiro mais amplo. “As reservas venezuelanas ultrapassam 300 bilhões de barris de petróleo pesado, adequado às refinarias norte-americanas”, afirmou.

Ele observa que um aumento gradual da extração poderia impactar custos de combustíveis e logística. “Isso teria efeitos sobre preços de bens e serviços e poderia influenciar a inflação nos EUA”, disse, ressaltando que esse cenário exigiria investimentos de longo prazo na infraestrutura venezuelana.

A Mensagem para Potências Rivais

A ofensiva do Trump 2.0 também é lida como recado direto a potências rivais. Para Beny Fard, a mensagem é clara. “A hegemonia dos EUA no hemisfério ocidental deve ser respeitada”, afirmou. Daniela Poli Vlavianos acrescenta que o sinal institucional é igualmente relevante. “Quando uma potência age sem autorização do Conselho de Segurança, a mensagem é que o enforcement da Carta da ONU é seletivo”, disse.

Sendo assim, para ela, isso incentiva respostas simétricas por parte de rivais estratégicos como China e Rússia.

Crise Institucional e Impactos nos Mercados Globais

A convergência das análises aponta para um risco institucional crescente. Para Daniela Poli Vlavianos, “a erosão da proibição do uso da força corrói a previsibilidade do sistema internacional”. Ou seja, esse efeito institucional, segundo ela, antecede riscos políticos e econômicos.

Gerson Brilhante compartilha dessa visão ao afirmar que “a soberania passa a ser um ativo precificado”. Spreads soberanos, CDS e custo de capital tendem a refletir o grau de alinhamento geopolítico. “Fluxos de investimento passam a seguir alinhamento político, não apenas eficiência marginal de capital”, disse.

Beny Fard observa que, apesar do choque regional, o impacto sobre mercados emergentes não é homogêneo. “Cada país latino-americano possui fundamentos próprios”, afirmou. Dessa forma, ele lembra que o risco Venezuela já vinha sendo precificado há anos por conta de calotes, sanções e má gestão.

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